No qual encontro, durante uma excursão,
singular viajante. Que fazia o viajante e quais
as palavras que ele pronunciava.
Em nome de Alá, Clemente e Misericordioso!
Voltava eu, certa vez, ao passo lento do meu camelo, pela estrada de
Bagdá, de uma excursão à famosa cidade de Samarra, nas margens do Tigre,
quando avistei, sentado numa pedra, um viajante, modestamente vestido, que
parecia repousar das fadigas de alguma viajem.
Dispunha-me a dirigir ao desconhecido o sala2 trivial dos caminhantes
quando, com grande surpresa, o vi levantar-se e pronunciar vagarosamente:
- Um milhão, quatrocentos e vinte e três mil, setecentos e quarenta e
cinco!
Sentou-se em seguida e quedou em silêncio, a cabeça apoiada nas mãos,
como se estivesse absorto em profunda meditação.
Parei a pequena distância e pus-me a observá-lo, como faria diante de um
monumento histórico dos tempos lendários.
Momentos depois o homem levantou-se novamente e, com voz clara e
pausada, enunciou outro número igualmente fabuloso:
- Dois milhões, trezentos e vinte e um mil, oitocentos e sessenta e seis!
E assim, várias vezes, o esquisito viajante pôs-se de pé, disse em voz alta
um número de vários milhões, sentando-se em seguida, na pedra tosca do
caminho.
Sem poder refrear a curiosidade que me espicaçava, aproximei-me do
desconhecido e, depois de saudá-lo em nome de Allah (com Ele a oração e a
glória)3, perguntei-lhe a significação daqueles números que só poderiam figurar
em gigantescas proporções.
- Forasteiro – respondeu o Homem que Calculava -, não censuro a
curiosidade que te levou a perturbar a marcha de meus cálculos e a serenidade de
meus pensamentos. E já que soubesse ser delicado no falar e no pedir, vou
atender ao teu desejo. Para tanto preciso, porém, contar-te a história de minha
vida!
E narrou o seguinte:
CAPÍTULO II
Neste capítulo Beremiz Samir, o Homem que
Calculava, conta à história de sua vida.
Como fiquei informado dos cálculos
prodigiosos que realizava e porque nos
tornamos companheiros de jornada.
Chamo-me Beremiz Samir e nasci na pequenina aldeia de Khói, na Pérsia,
à sombra da pirâmide imensa formada pelo Ararat. Muito moço ainda,
empreguei-me, como pastor, a serviço de um rico senhor de Khamat.1
Todos os dias, ao nascer do sol, levava para o campo o grande rebanho e
era obrigado a trazê-lo ao abrigo antes de cair à noite. Com receio de perder
alguma ovelha tresmalhada e ser, por tal negligência, severamente castigado,
contava-as várias vezes durante o dia.
Fui, assim, adquirindo, pouco a pouco, tal habilidade em contar que, por
vezes, num relance calculava sem erro o rebanho inteiro. Não contente com isso
passei a exercitar-me contando os pássaros quando, em bandos, voavam, pelo céu
afora. Tornei-me habilíssimo nessa arte.
Ao fim de alguns meses – graças a novos e constantes exercícios –
contando formigas e outros pequeninos insetos, cheguei a praticar a proeza
incrível de contar todas as abelhas de um enxame! Essa façanha de calculista,
porém, nada viria a valer, diante das muitas outras que mais tarde pratiquei! O
meu generoso amo possuía, em dois ou três oásis distantes, grandes plantações de
tâmaras e, informado de minhas habilidades matemáticas, encarregou-me de
dirigir a venda de seus frutos, por mim contados nos cachos, um a um. Trabalhei,
assim, ao pé das tamareiras, cerca de dez anos. Contente com os lucros que
obteve, o meu bondoso patrão, acaba de conceder-me quatro meses de repouso e
vou, agora, a Bagdá, pois tenho desejo de visitar alguns parentes e admirar as
belas mesquitas e os suntuosos palácios da cidade famosa. E para não perder
tempo, exercito-me durante a viajem, contando as árvores que ensombram esta
região, as flores que a perfumam, os pássaros que voam no céu entre nuvens.
E, apontando para uma velha grande figueira que se erguia à pequena
distância, prosseguiu:
- Aquela árvore, por exemplo, tem duzentas e oitenta e quatro ramos.
Sabendo-se que cada ramo tem, em média, trezentas e quarenta e sete folhas, é
fácil concluir que aquela árvore tem um total de noventa e oito mil, quinhentas e
quarenta e oito folhas! Estará certo, meu amigo?2
- Que maravilha! – exclamei atônito. – É inacreditável possa um homem
contar, em rápido volver d’olhos, todos os galhos de uma árvore e as flores de
um jardim! Tal habilidade pode proporcionar, a qualquer pessoa, seguro meio de
ganhar riquezas invejáveis!
- Como assim? – estranhou Beremiz. – Jamais me passou pela idéia que se
pudesse ganhar dinheiro, contando aos milhões folhas de árvores e enxames de
abelhas! Quem poderá interessar-se pelo total de ramos de uma árvore ou pelo
número do passaredo que cruza o céu durante o dia?
- A vossa admirável habilidade – expliquei – pode ser empregada em vinte
mil casos diferentes. Numa grande capital, como Constantinopla, ou mesmo
Bagdá, sereis auxiliar precioso para o governo. Podereis calcular populações,
exércitos e rebanhos. Fácil vos será avaliar os recursos do país, o valor das co-
1 Khamat de Maru, cidade situada na base do Monte Ararat. Khói fica no vale desse mesmo nome e é banhada pelas águas que
descem das montanhas de Salmas (Malta Tahan).
2 Veja no Apêndice: Calculistas Famosos.
lheitas, os impostos, as mercadorias e todos os recursos do Estado. Asseguro-vos
– pelas relações que mantenho, pois sou bagdáli1 – que não vos será difícil obter
lugar de destaque junto ao glorioso califa Al Motacém (nosso amo e senhor).
Podeis talvez exercer o cargo de vizir-tesoureiro ou desempenhar as funções de
secretário da Fazenda muçulmana.2
- Se assim é, ó jovem – respondeu o calculista -, não hesito. Vou contigo
para Bagdá.
E sem mais preâmbulos, acomodou-se como pode em cima do meu
camelo (único que possuíamos), e pusemo-nos a caminhar pela larga estrada em
direção à gloriosa cidade.
E daí em diante, ligados por este encontro casual em meio da estrada
agreste, tornamo-nos companheiros e amigos inseparáveis.
Beremiz era de gênio alegre e comunicativo. Muito moço ainda – pois não
completara vinte e seis anos -, era dotado de inteligência extremamente viva e
notável aptidão para a ciência dos números.
Formulava, às vezes, sobre os acontecimentos mais banais da vida,
comparações inesperadas que denotavam grande agudeza de espírito e raro
talento matemático. Sabia, também, contar histórias e narrar episódios que muito
ilustravam suas palestras, já de si atraentes e curiosas.
Às vezes punha-se várias horas, em silêncio, num silêncio maníaco, a
meditar sobre cálculos prodigiosos. Nessas ocasiões esforçava-me por não o
perturbar. Deixava-o sossegado, a fim de que ele pudesse fazer com os recursos
de sua memória privilegiada, descobertas retumbantes nos misteriosos arcanos da
Matemática, a ciência que os árabes tanto cultivaram e engrandeceram.
CAPÍTULO III
Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos perto de um antigo caravançará1 meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos.
Por entre pragas e impropérios gritavam possessos, furiosos:
- Não pode ser!
- Isto é um roubo!
- Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
- Somos irmãos – esclareceu o mais velho – e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e, ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma
35 camelos, e, a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça e a nona parte de 35 também não são exatas?
- É muito simples – atalhou o Homem que Calculava. – Encarrego-me de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal que em boa hora aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:
- Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viajem se ficássemos sem o camelo?
- Não te preocupes com o resultado, ó Bagdali! – replicou-me em voz baixa Beremiz – Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal,2 que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
- Vou, meus amigos – disse ele, dirigindo-se aos três irmãos -, fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem em número de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
- Deverias receber meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio.
Receberás a metade de 36, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
- E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto é 11 e pouco.
Vais receber um terço de 36, isto é 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse por fim ao mais moço:
E tu jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma nona parte de 35, isto é 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, isto é, O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
- Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir – partilha em que todos três saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36 camelos, sobram, portanto, dois.
Um pertence como sabem ao bagdáli, meu amigo e companheiro, outro toca por direito a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança!
- Sois inteligente, ó Estrangeiro! – exclamou o mais velho dos três irmãos.
– Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade!
E o astucioso Beremiz – o Homem que Calculava – tomou logo posse de um dos mais belos “jamales” do grupo e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
- Poderás agora, meu amigo, continuar a viajem no teu camelo manso e seguro! Tenho outro, especialmente para mim!
E continuamos nossa jornada para Bagdá.
CAPÍTULO IV
Três dias depois, aproximava-nos das ruínas de pequena aldeia denominada Sippar1 – quando encontramos caído na estrada, um pobre viajante, roto e ferido.
Socorremos o infeliz e dele próprio ouvimos o relato de sua aventura.
Chamava-se Salém Nasair, e era um dos mais ricos mercadores de Bagdá.
Ao regressar, poucos dias antes, de Báçora, com grande caravana pela estrada de el-Hilleh2, fora atacado por uma chusma de nômades persas do deserto. A caravana foi saqueada e quase todos os seus componentes pereceram nas mãos dos beduínos.
Ele – o chefe – conseguira, milagrosamente escapar oculto na areia, entre os cadáveres dos seus escravos.
E, ao concluir a narrativa de sua desgraça, perguntou-nos com voz angustiosa:
- Trazeis por acaso, ó muçulmanos, alguma coisa que se possa comer?
Estou quase, quase a morrer de fome!
- Tenho, de resto, três pães – respondi.
- Trago ainda cinco! – afirmou a meu lado, o Homem que Calculava.
- Pois bem – sugeriu o cheique3 -, juntemos esses pães e façamos uma sociedade única. Quando chegar a Bagdá prometo pagar com 8 moedas de ouro o pão que comer!
Assim fizemos. No dia seguinte, ao cair da tarde, entramos na célebre cidade de Bagdá, a pérola do Oriente.
Ao atravessarmos vistosa praça, demos de rosto com aparatoso cortejo. Na frente marchava em garboso alazão, o poderoso Ibrahim Maluf, um dos vizires4.
O Vizir5 ao avistar o cheique Salém Nasair em nossa companhia, chamouo, e, fazendo parar a sua poderosa guarda, perguntou-lhe:
- Que te aconteceu, ó meu amigo? Por que te vejo chegar a Bagdá, roto e maltrapilho, em companhia de dois homens que não conheço?
O desventurado cheique narrou, minuciosamente, ao poderoso ministro, tudo o que lhe ocorrerá em caminho, fazendo a nosso respeito os maiores elogios.
- Paga sem perda de tempo a esses dois forasteiros – ordenou-lhe o grãovizir.
E, tirando de sua bolsa 8 moedas de ouro, entregou-as a Salém Nasair, acrescentando:
-Quero levar-te agora mesmo ao palácio, pois, o Comendador dos Crentes deseja com certeza ser informado da nova afronta que os bandidos e beduínos praticaram, matando nossos amigos e saqueando caravanas dentro de nossas fronteiras.
O rico Salém Nasair disse-nos, então:
- Vou deixar-vos, meus amigos. Antes, porém, desejo agradecer-vos o grande auxílio que ontem me prestastes. E para cumprir a palavra dada, vou pagar já o pão que generosamente me destes!
E dirigindo-se ao Homem que Calculava disse-lhe:
- Vais receber pelos 5 pães, 5 moedas!
E voltando-se para mim, ajuntou:
- E tu, ó bagdáli, pelos 3 pães, vais receber 3 moedas!
Com grande surpresa, o calculista objetou respeitoso:
- Perdão, ó cheique. A divisão, feita desse modo, pode ser muito simples, mas não é matematicamente certa! Se eu dei 5 pães devo receber 7 moedas; o meu companheiro bagdali, que deu 3 pães, deve receber apenas uma moeda.
- Pelo nome de Maomé!1 – interveio o vizir Ibrahim, interessado
vivamente pelo caso. – Como justificar, ó estrangeiro, tão disparatada forma de pagar 8 pães com 8 moedas? Se contribuíste com 5 pães, por que exiges 7 moedas? Se o teu amigo contribuiu com 3 pães, por que afirmas que ele deve receber uma única moeda?
O Homem que Calculava aproximou-se do prestigioso ministro e assim falou:
- Vou provar-vos, ó Vizir, que a divisão das 8 moedas, pela forma por mim proposta, é matematicamente certa. Quando durante a viajem, tínhamos fome, eu tirava um pão da caixa em que estavam guardados e repartia-o em três pedaços, comendo cada um de nós, um desses pedaços. Se eu dei 5 pães, dei é
claro, 15 pedaços; se o meu companheiro deu 3 pães, contribuiu com 9 pedaços.
Houve, assim, um total de 24 pedaços, cabendo, portanto, 8 pedaços para cada um. Dos 15 pedaços que dei, comi 8; dei na realidade, 7; o meu companheiro deu, como disse, 9 pedaços, e, comeu também, 8; logo, deu apenas 1. Os 7 pedaços que eu dei e que o bagdali forneceu formaram os 8 que couberam ao
cheique Salém Nasair. Logo, é justo que eu receba 7 moedas e o meu companheiro, apenas uma.2
O grão-vizir, depois de fazer os maiores elogios ao Homem que Calculava, ordenou que lhe fossem entregues sete moedas, pois a mim me cabia, por direito, apenas uma. Era lógica, perfeita e irrespondível a demonstração apresentada pelo matemático.
- Esta divisão – retorquiu o calculista – de sete moedas para mim e uma para meu amigo, conforme provei, é matematicamente certa, mas não é perfeita aos olhos de Deus!
E tomando as moedas na mão dividiu-as em duas partes iguais. Deu-me uma dessas partes (4 moedas), guardando para si, as quatro restantes.
- Esse homem é extraordinário – declarou o vizir. – Não aceitou a divisão proposta de 8 moedas em duas parcelas de 5 e 3, em que era favorecido; demonstrou ter direito a 7 e que seu companheiro só devia receber uma moeda,acabando por dividir as 8 moedas em 2 parcelas iguais, que repartiu, finalmente com o amigo.
E acrescentou com entusiasmo:
- Mac Allah!1 Esse jovem além de parecer-me um sábio e habilíssimo nos cálculos e na Aritmética, é bom para o amigo e generoso para o companheiro.
Tomo-o hoje mesmo para meu secretário!
- Poderoso Vizir – tornou o Homem que Calculava - , vejo que acabais de fazer 32 vocábulos, com um total de 143 letras, o maior elogio que ouvi em minha vida, e eu, para agradecer- vos, sou forçado a empregar 64 palavras nas quais figuram nada menos que 286 letras. O dobro, precisamente! Que Alá vos
abençoe e vos proteja!
Com tais palavras o Homem que Calculava deixou a todos nós maravilhados com sua argúcia e invejável talento. A sua capacidade de calculista ia ao extremo de contar as palavras e as letras de uma frase que acabara de ouvir.
CAPÍTULO V
Logo que deixamos a companhia do cheique Nasair e do vizir Maluf, encaminhamo-nos para uma pequena hospedaria denominada Marreco Dourado, nas vizinhanças da mesquita de Solimã.
Os nossos camelos foram vendidos a um chamir1 de minha confiança, que morava perto.
Em caminho disse a Beremiz:
- Já vê meu amigo, que tive razão quando afirmei que um calculista hábil acharia com facilidade um bom emprego em Bagdá! Mal você chegou, foi convidado para exercer o cargo de secretário de um vizir. Não precisará voltar para a tal aldeia de Khói, penhascosa e triste.
- Mesmo que aqui prospere – respondeu-me o calculista – e enriqueça, pretendo voltar, mais tarde, à Pérsia, para rever o meu torrão natal. Ingrato é aquele que esquece a pátria e os amigos de infância, quando tem a felicidade de encontrar na vida, o oásis da prosperidade e da fortuna.
E acrescentou tomando-me pelo braço:
- Viajamos juntos, até o presente momento, 8 dias exatamente. Durante esse tempo, para esclarecer dúvidas e indagar sobre coisas que me interessavam, pronunciei, precisamente, 414.720 palavras. Ora, como em 8 dias há 11.520 minutos, posso concluir que durante a nossa jornada, pronunciei em média, 36
palavras por minuto, isto é, 2.160 por hora. Esses números mostram que falei pouco, fui discreto e não tomei o teu tempo fazendo-te ouvir discursos estéreis. O homem taciturno, excessivamente calado, torna-se desagradável; mas os que falam sem parar irritam ou enfastiam seus ouvintes. Devemos, pois, evitar as
palavras inúteis sem cair no laconismo exagerado, incompatível com a delicadeza. A tal respeito, poderei narrar um caso muito curioso.
Depois de ligeira pausa o calculista contou-me o seguinte:
- Havia em Teerã, na Pérsia, um velho mercador que tinha três filhos. Um dia o mercador chamou os jovens e disse-lhes: “Aquele que passar o dia sem pronunciar palavras inúteis receberá de mim, um prêmio de vinte e três timões.”
Ao cair da noite os três filhos foram ter à presença do ancião. Disse o primeiro:
- Evitei hoje meu pai, todas as palavras inúteis. Espero, portanto, merecer (segundo a vossa promessa) o prêmio combinado – prêmio esse de vinte e três timões, conforme deveis estar lembrado.
O segundo aproximou-se do velho, beijou-lhe as mãos, e limitou-se a dizer:
- Boa noite, meu pai!
O mais moço, finalmente, não pronunciou palavra, aproximou-se do velho e estendeu-lhe apenas a mão para receber o prêmio. O mercador, ao observar a atitude dos três rapazes, assim falou:
- O primeiro, ao chegar à minha presença, fatigou-me a atenção com várias palavras inúteis; o terceiro mostrou-se exageradamente lacônico. O prêmio caberá, pois, ao segundo, que foi discreto sem verbosidade e simples sem afetação.
E Beremiz, ao concluir, interpelou-me:
- Não acha que o velho mercador agiu com justiça, ao julgar os três filhos?
Nada respondi. Achei melhor não discutir o caso dos vinte e três timões
com aquele homem prodigioso que reduzia tudo a números, calculava médias e resolvia problemas.
Momentos depois, chegávamos ao Marreco Dourado. O dono da hospedaria chamava-se Salim e fora empregado do meu pai. Ao avistar-me gritou risonho:
- Alá sobre ti, meu menino!1 Aguardo as tuas ordens agora e sempre!
Disse-lhe que precisava de um quarto para mim e para o meu amigo Beremiz Samir, o calculista, secretário do vizir Maluf.
- Esse homem é calculista? – indagou o velho Salim. – Chegou então em momento oportuno para tirar-me de um embaraço. Acabo de ter séria divergência com um vendedor de jóias. Discutimos longo tempo e de nossa discussão resultou afinal, um problema que não sabemos resolver.
Informadas de que um grande calculista havia chegado à hospedaria, várias pessoas aproximaram-se curiosas. O vendedor de jóias foi chamado e declarou achar-se interessadíssimo na resolução do tal problema.
- Qual é, afinal, a origem da dúvida? – perguntou Beremiz.
- Esse homem (e apontou para o joalheiro) veio da Síria vender jóias em Bagdá; prometeu-me que pagaria, pela hospedagem, 20 dinares se vendesse as jóias por 100 dinares, pagando 35 se as vendesse por 200. Ao cabo de vários dias, tendo andado daqui para ali, acabou vendendo tudo por 140 dinares. Quanto
deve pagar, consoante a nossa combinação pela hospedagem?
- Devo pagar apenas vinte e quatro dinares e meio! – replicou logo o mercador sírio. – Se para a venda de 200 eu pagaria 35, para a venda de 140 eu devo pagar 24 e meio!
Proporção feita pelo mercador de jóias:
200 está para 35, assim como 140 está para X ou:
200 : 35 : : 140 : X
Multiplicando os meios e dividindo pelo extremo, o resultado será:
X = 24,5
Total da dívida
- Está errado! – contrariou irritado o velho Salim. – Pelas minhas contas são 28. – Veja bem: Se para 100 eu deveria receber 20, para 140, da venda, devo receber 28. E vou provar.
E o velho Salim raciocinou do seguinte modo:
- Se para 100 eu deveria receber 20, para 10 (que é a décima parte de 100), eu deveria receber a décima parte de 20.
Qual é a décima parte de 20?
A décima parte de 20 é 2.
Logo, para 10, eu deveria receber 2.
140 quantos 10 contém?
140 contêm 14 vezes 10.
Proporção feita pelo dono da hospedaria:
100 está para 20, assim como 140 está para X ou:
100 : 20 : : 140 : X
O valor de X é 28
Total da dívida
- Logo, para 140, eu devo receber 14 vezes 2, que é igual a 28, como já disse.
E o velho Salim, depois de todos aqueles cálculos, bradou enérgico:
- Devo receber 28. É esta a conta certa!
- Calma, meus amigos – interrompeu o calculista – É preciso encarar as dúvidas com serenidade e mansidão. A precipitação conduz ao erro e à discórdia.
Os resultados que os senhores indicam estão errados, conforme vou provar.
E esclareceu o caso do seguinte modo:
- De acordo com a combinação feita, o sírio seria obrigado pagar 20 dinares pela hospedagem, se vendesse as jóias por 100, e, seria obrigado a pagar 35 se as vendesse por 200. Temos assim:
Preço de venda Custo da hospedagem
200 .................................... 35
100 .................................... 20
diferença 100 diferença 15
Reparem que a diferença de 100, no preço da venda, corresponde a uma diferença de 15 no preço da hospedagem! Não é claro?
- Claro como leite de camela! – assentiram os dois.
- Ora – prosseguiu o calculista -, se o acréscimo de 100 na venda traria um aumento de 15 na hospedagem, eu pergunto: Qual será o aumento da hospedagem para o acréscimo de 40 na venda? Se a diferença fosse de 20 (que é um quinto de 100), o aumento da hospedagem seria de 3 (pois 3 é um quinto de
15). Para a diferença de 40 (que é o dobro de 20), o acréscimo da hospedagem deverá ser de 6. O pagamento correspondente a 140, é, portanto, de 26.
Proporção feita pelo calculista:
100 está para 15 assim como 40
está para X, ou:
100 : 15 : : 40 : x
O valor de x é 6
(Acréscimo de preço e não o total da dívida)
- Meu amigo! Os números, na simplicidade com que se apresentam, iludem, não raro, os mais atilados. As proporções que nos parecem perfeitas estão, por vezes, falseadas pelo erro. Da incerteza dos cálculos é que resulta o indiscutível prestígio da Matemática. Nos termos da combinação, o senhor
deverá pagar ao hospedeiro 26 dinares e não 24 e meio, como a princípio acreditava! Há ainda , na solução final desse problema, pequena diferença que não merece ser apurada e cuja grandeza não disponho de recursos para exprimir numericamente.1
- O senhor tem toda razão – assentiu o joalheiro. – Reconheço agora que o meu cálculo estava errado.
E sem hesitar, tirou da bolsa 26 dinares e entregou-os ao velho Salim, oferecendo de presente ao talentoso Beremiz um belo anel de ouro com duas pedras escuras, exortando a dádiva com afetuosas expressões.
Todos quantos se achavam na hospedaria admiraram-se da sagacidade do novo calculista, cuja fama, dia a dia, galgava a passos largos, a almenara2 do triunfo.
CAPÍTULO VI
Depois da segunda prece,1 deixamos a hospedaria do Marreco Dourado, e,
seguimos a passos rápidos para a residência do vizir Ibrahim Maluf, ministro do
rei.
Ao entrar na rica morada do nobre muçulmano, fiquei realmente encantado.
Cruzamos pesada porta de ferro e percorremos um corredor estreito, e,
sempre guiados por um escravo núbio gigantesco (que trazia algemas de ouro no
punho esquerdo) fomos conduzidos ao soberbo jardim interno do palácio.
Esse jardim, construído com fino gosto, era ensombrado por duas filas
paralelas de laranjeiras. Para esse jardim abriam-se várias portas, algumas das
quais deviam servir ao harém2 do palácio. Duas escravas kafiras3 que se achavam
descuidadas colhendo flores, logo que nos avistaram correram entre os canteiros
e desapareceram atrás das colunas. Do jardim, que me pareceu alegre e gracioso,
passava-se por uma porta estreita, aberta em muro bastante alto, para o primeiro
pátio da belíssima vivenda. Digo primeiro porque a residência dispunha de outro
pátio na ala esquerda do edifício.
No meio desse primeiro pátio, todo coberto de esplêndido mosaico,
relembrava uma fonte com três repuxos. As três curvas líquidas4 formadas no
espaço rebrilhavam ao sol.
Atravessamos o pátio, e, sempre guiados pelo escravo das algemas de
ouro, fomos levados para o interior do palácio. Cruzamos várias salas ricamente
enfeitadas com tapeçarias bordadas com fios de prata, e, chegamos finalmente ao
aposento em que se achava o prestigioso ministro do rei.
Fomos encontra-lo recostado em grandes almofadas a palestrar com dois
de seus amigos.
Um deles (logo reconheci) era o cheique Salém Nasair, nosso
companheiro de aventuras no deserto; o outro era um homem baixo, de rosto
redondo, fisionomia bondosa, a barba ligeiramente grisalha. Trajava com apurado
gosto e ostentava no peito uma medalha de forma retangular, tendo uma das
metades amarela, cor de ouro, e outra escura como bronze.
O vizir Maluf recebeu-nos com demonstrações de viva simpatia.
Dirigindo-se ao homem da medalha, disse risonho:
- Eis aí, meu caro Iezid, o nosso grande calculista. Este jovem que o
acompanha é um bagdáli que o descobriu por acaso quando jornadeava pelos
caminhos de Allah.5
Dirigimos respeitoso salã ao nobre cheique. Soubemos mais tarde, que se
tratava de brilhante poeta – Iezid Abdul-Hamid – amigo e confidente do califa
Al-Motacém. Aquela medalha singular ele a recebera como prêmio das mãos do
califa, por ter escrito um poema com trinta mil e duzentos versos sem empregar
uma única vez as letras Kaf, Iam e Ayn.
seguimos a passos rápidos para a residência do vizir Ibrahim Maluf, ministro do
rei.
Ao entrar na rica morada do nobre muçulmano, fiquei realmente encantado.
Cruzamos pesada porta de ferro e percorremos um corredor estreito, e,
sempre guiados por um escravo núbio gigantesco (que trazia algemas de ouro no
punho esquerdo) fomos conduzidos ao soberbo jardim interno do palácio.
Esse jardim, construído com fino gosto, era ensombrado por duas filas
paralelas de laranjeiras. Para esse jardim abriam-se várias portas, algumas das
quais deviam servir ao harém2 do palácio. Duas escravas kafiras3 que se achavam
descuidadas colhendo flores, logo que nos avistaram correram entre os canteiros
e desapareceram atrás das colunas. Do jardim, que me pareceu alegre e gracioso,
passava-se por uma porta estreita, aberta em muro bastante alto, para o primeiro
pátio da belíssima vivenda. Digo primeiro porque a residência dispunha de outro
pátio na ala esquerda do edifício.
No meio desse primeiro pátio, todo coberto de esplêndido mosaico,
relembrava uma fonte com três repuxos. As três curvas líquidas4 formadas no
espaço rebrilhavam ao sol.
Atravessamos o pátio, e, sempre guiados pelo escravo das algemas de
ouro, fomos levados para o interior do palácio. Cruzamos várias salas ricamente
enfeitadas com tapeçarias bordadas com fios de prata, e, chegamos finalmente ao
aposento em que se achava o prestigioso ministro do rei.
Fomos encontra-lo recostado em grandes almofadas a palestrar com dois
de seus amigos.
Um deles (logo reconheci) era o cheique Salém Nasair, nosso
companheiro de aventuras no deserto; o outro era um homem baixo, de rosto
redondo, fisionomia bondosa, a barba ligeiramente grisalha. Trajava com apurado
gosto e ostentava no peito uma medalha de forma retangular, tendo uma das
metades amarela, cor de ouro, e outra escura como bronze.
O vizir Maluf recebeu-nos com demonstrações de viva simpatia.
Dirigindo-se ao homem da medalha, disse risonho:
- Eis aí, meu caro Iezid, o nosso grande calculista. Este jovem que o
acompanha é um bagdáli que o descobriu por acaso quando jornadeava pelos
caminhos de Allah.5
Dirigimos respeitoso salã ao nobre cheique. Soubemos mais tarde, que se
tratava de brilhante poeta – Iezid Abdul-Hamid – amigo e confidente do califa
Al-Motacém. Aquela medalha singular ele a recebera como prêmio das mãos do
califa, por ter escrito um poema com trinta mil e duzentos versos sem empregar
uma única vez as letras Kaf, Iam e Ayn.
Custa-me acreditar, amigo Maluf – declarou, em tom risonho, o poeta
Iezid -, nas façanhas prodigiosas levadas a termo por esse calculista persa.
Quando os números se combinam, aparecem também, os artifícios de cálculo e as
sutilezas algébricas. Ao rei El-Harit, filho de Modad, apresentou-se certa vez um
mago que afirmava poder ler na areia o destino dos homens. “O senhor faz
cálculos?” – perguntou o rei. E antes que o mago despertasse do espanto em que
se achava, o monarca ajuntou: “Se não faz cálculo, suas previsões nada valem: se
as obtém pelo cálculo, duvido muito delas.” Aprendi na Índia um provérbio que
diz: “É preciso desconfiar sete vezes do cálculo e cem vezes do matemático.”1
- Para pôr termo a essas desconfianças – sugeriu o vizir – vamos submeter
o nosso hóspede a uma prova decisiva.
E dizendo isso, ergueu-se da cômoda almofada, e, tomando delicadamente
Beremiz pelo braço, conduziu-o até uma das varandas do palácio.
Abria essa varanda para o segundo pátio lateral que, no momento,
desbordava de camelos. E que lindos espécimes! Quase todos pareciam de boa
raça. Avistei, de pronto, dois ou três brancos, da Mongólia, e vários carehs, de
pelo claro.
- Eis aí – disse o vizir – a bela partida de camelos que comprei ontem e
que pretendo enviar, como dote, ao pai de minha noiva. Sei precisamente, sem
erro possível, quantos são!
E o vizir para tornar mais interessante a prova, enunciou, em segredo, ao
ouvido de seu amigo Iezid, o poeta, o número total das alimárias.
- Quero agora – prosseguiu, voltando-se para Beremiz – que o nosso
calculista diga quantos camelos se acham no pátio, diante de nós.
Fiquei apreensivo com o caso. Os camelos eram numerosos e confundiamse
no meio da agitação em que se achavam. Se o meu amigo, por um descuido,
errasse o cálculo, a nossa visita teria como conseqüência o mais doloroso
fracasso. Depois de correr os olhos pela irrequieta cáfila,2 o inteligente Beremiz
disse:
- Senhor vizir! Quero crer que se encontram, agora, neste pátio 257
camelos!
- É isso mesmo – confirmou o vizir. – Acertou. O total é realmente esse:
257! Kelimet-Uallah.3
- E como chegou a esse resultado tão depressa, e com tanta precisão? –
indagou, com indisfarçável curiosidade, o poeta Iezid.
- Muito simplesmente – explicou Beremiz. – Contar os camelos, um por
um, seria a meu ver, tarefa sem interesse, do valor de uma bagatela. Para tornar
mais interessante o problema, procedi da seguinte forma: Contei primeiro todas
as pernas e em seguida as orelhas: achei, desse modo, um total de 1.541. A este
total juntei uma unidade, e dividi o resultado por 6. Feita essa pequena divisão,
encontrei o quociente exato: 257!
Iezid -, nas façanhas prodigiosas levadas a termo por esse calculista persa.
Quando os números se combinam, aparecem também, os artifícios de cálculo e as
sutilezas algébricas. Ao rei El-Harit, filho de Modad, apresentou-se certa vez um
mago que afirmava poder ler na areia o destino dos homens. “O senhor faz
cálculos?” – perguntou o rei. E antes que o mago despertasse do espanto em que
se achava, o monarca ajuntou: “Se não faz cálculo, suas previsões nada valem: se
as obtém pelo cálculo, duvido muito delas.” Aprendi na Índia um provérbio que
diz: “É preciso desconfiar sete vezes do cálculo e cem vezes do matemático.”1
- Para pôr termo a essas desconfianças – sugeriu o vizir – vamos submeter
o nosso hóspede a uma prova decisiva.
E dizendo isso, ergueu-se da cômoda almofada, e, tomando delicadamente
Beremiz pelo braço, conduziu-o até uma das varandas do palácio.
Abria essa varanda para o segundo pátio lateral que, no momento,
desbordava de camelos. E que lindos espécimes! Quase todos pareciam de boa
raça. Avistei, de pronto, dois ou três brancos, da Mongólia, e vários carehs, de
pelo claro.
- Eis aí – disse o vizir – a bela partida de camelos que comprei ontem e
que pretendo enviar, como dote, ao pai de minha noiva. Sei precisamente, sem
erro possível, quantos são!
E o vizir para tornar mais interessante a prova, enunciou, em segredo, ao
ouvido de seu amigo Iezid, o poeta, o número total das alimárias.
- Quero agora – prosseguiu, voltando-se para Beremiz – que o nosso
calculista diga quantos camelos se acham no pátio, diante de nós.
Fiquei apreensivo com o caso. Os camelos eram numerosos e confundiamse
no meio da agitação em que se achavam. Se o meu amigo, por um descuido,
errasse o cálculo, a nossa visita teria como conseqüência o mais doloroso
fracasso. Depois de correr os olhos pela irrequieta cáfila,2 o inteligente Beremiz
disse:
- Senhor vizir! Quero crer que se encontram, agora, neste pátio 257
camelos!
- É isso mesmo – confirmou o vizir. – Acertou. O total é realmente esse:
257! Kelimet-Uallah.3
- E como chegou a esse resultado tão depressa, e com tanta precisão? –
indagou, com indisfarçável curiosidade, o poeta Iezid.
- Muito simplesmente – explicou Beremiz. – Contar os camelos, um por
um, seria a meu ver, tarefa sem interesse, do valor de uma bagatela. Para tornar
mais interessante o problema, procedi da seguinte forma: Contei primeiro todas
as pernas e em seguida as orelhas: achei, desse modo, um total de 1.541. A este
total juntei uma unidade, e dividi o resultado por 6. Feita essa pequena divisão,
encontrei o quociente exato: 257!
- Pela glória da Caaba!1 – clamou, com alegria, o vizir. – Isso tudo é
originalíssimo e estupendo! Quem pudera imaginar que esse calculista, para
tornar mais interessante o problema, fosse capaz de contar todas as pernas e
orelhas de 257 camelos!
E repetiu com sincero entusiasmo:
- Pela glória de Caaba!
- Devo dizer, senhor vizir – retorquiu Beremiz -, que os cálculos se tornam
às vezes, complicados e difíceis em conseqüência do descuido ou da falta de
habilidade do calculista. Certa vez, em Khói, na Pérsia, quando vigiava o rebanho
de meu amo, passou pelo céu um bando de borboletas. Um pastor, a meu lado
perguntou-me se eu poderia contá-las. “São oitocentas e cinqüenta e seis!” –
respondi. “Oitocentas e cinqüenta e seis!” – exclamou o meu companheiro, como
se achasse exagerado aquele total. Só então verifiquei que por descuido havia
contado não as borboletas, mas, suas asas. Feita a necessária divisão por 2,
encontrei a seguir, o resultado certo.
Ao ouvir o relato desse caso, expandiu-se o vizir em estrepitosa risada que
soava, aos meus ouvidos, como se fora uma música deliciosa.
- Há nisso tudo – interveio, muito sério, o poeta Iezid – uma
particularidade que me escapa ao raciocínio. A divisão por 6 é aceitável, uma vez
que cada camelo tem 4 patas e 2 orelhas e a soma (4 + 2) é igual a 62. Não
compreendo, porém, é a razão que o levou a juntar 1 ao total antes de dividi-lo
por 6!
- Nada mais simples – acudiu logo Beremiz. – Ao contar as orelhas, notei
que um dos camelos era defeituoso (só tinha uma orelha). Para que a conta
ficasse certa era preciso acrescentar 1 ao total obtido.
E voltando-se para o vizir perguntou:
- Seria indiscrição ou imprudência de minha parte pergunta-vos, ó vizir,
qual a idade daquela que tem a ventura de ser vossa noiva?
- De modo algum – respondeu, risonho, o ministro. – Astir tem 16 anos!
E acrescentou, sublinhando as palavras com um ligeiro tom de
desconfiança:
- Mas não vejo relação alguma, senhor calculista, entre a idade da minha
noiva e os camelos que vou oferecer, de presente, ao meu futuro sogro!
- Desejo apenas – refletiu Beremiz – fazer-vos uma pequena sugestão. Se
retirardes da cáfila o tal camelo defeituoso (sem orelha) o total passará a ser de
256. Ora, 256 é o quadrado de 16, isto é, 16 vezes 16. O presente oferecido ao pai
da encantadora Astir tomará, desse modo, feição altamente matemática: O
número de camelos que formam o lote é igual ao quadrado da idade da noiva!
Além do mais, o número 256 é potência exata do número 2 (que para os antigos é
número simbólico), ao passo que 257 é primo.3 Essas relações entre os números quadrados são de bom augúrio para os apaixonados. Há uma lenda muito
interessante sobre os números quadrados. Quereis ouvi-la?
- Com muito prazer – respondeu o vizir. –As lendas famosas, quando bem
narradas, são como brincos de ouro para os meus ouvidos.
Depois de ouvir palavras tão lisonjeiras, o calculista inclinou a cabeça,
num gesto de agradecimento, e começou:
Conta-se que o famoso rei Salomão,1 para demonstrar a finura e a
sabedoria de seu espírito, deu à sua noiva, a rainha de Sabá – a famosa Belquiss –
uma caixa com 529 pérolas. Por que 529? Sabe-se que 529 é o quadrado de 23,
isto é, 529 é igual a 23 multiplicado por 23. E 23 era, exatamente, a idade da
rainha. No caso da jovem Astir, o número 256 virá substituir, com muita
vantagem, o número 529.
Todos olharam, com certo espanto para o calculista. E este em tom calmo
e sereno, prosseguiu:
Vamos somar os algarismos de 256. Obtemos a soma 13. O quadrado de
13 é 169. Vamos, agora, somar os algarismos de 169. A soma dos algarismos de
169 é 16. Existe, portanto, entre os números 13 e 16, uma curiosa relação que
poderia ser chamada a “amizade quadrática”. Realmente, se os números
falassem, poderíamos ouvir o seguinte diálogo. O Dezesseis diria ao Treze:
- Quero prestar-te uma homenagem, meu caro. O meu quadrado é 256 e a
soma dos algarismos desse quadrado é treze.
O Treze responderia:
- Agradeço a tua gentileza, meu amigo, e quero retribuí-la na mesma
moeda. O meu quadrado é 169 e a soma dos algarismos desse quadrado é 16.
- Parece-me que justifiquei cabalmente a preferência que deve ser dada ao
número 256 que excede, por suas singularidades, o número 257.
- A sua idéia é bastante curiosa – concordou, prontamente, o vizir -, e vou
executá-la, muito embora venha sobre mim pesar a acusação de plagiário do
grande Salomão!
E, dirigindo-se ao poeta, Iezid, rematou:
- Noto que a inteligência desse calculista não é menor que a sua habilidade
em descobrir analogias e inventar lendas. Muito acertado andei no momento em
que resolvi convidá-lo para meu secretário.
- Sinto dizer-vos, ilustre Mirza2 – tornou Beremiz -, que só poderia aceitar
o vosso honroso convite se aqui houvesse também lugar para o meu bom amigo
Hank-Tade-Maiá – o bagdali, que ora se vê desempregado e sem recursos.
Fiquei encantado com a delicada lembrança do calculista. Ele procurava
desse modo, atrair a meu favor a valiosa proteção o poderoso vizir.
- É muito justo o seu pedido – condescendeu o vizir. – O seu companheiro
Hank-Tade-Maiá ficará exercendo aqui as funções de escriba, com o ordenado
que lhe couber.
Aceitei, sem hesitar, a proposta, exprimindo logo ao vizir, e, também ao
bondoso Beremiz, o meu reconhecimento.
originalíssimo e estupendo! Quem pudera imaginar que esse calculista, para
tornar mais interessante o problema, fosse capaz de contar todas as pernas e
orelhas de 257 camelos!
E repetiu com sincero entusiasmo:
- Pela glória de Caaba!
- Devo dizer, senhor vizir – retorquiu Beremiz -, que os cálculos se tornam
às vezes, complicados e difíceis em conseqüência do descuido ou da falta de
habilidade do calculista. Certa vez, em Khói, na Pérsia, quando vigiava o rebanho
de meu amo, passou pelo céu um bando de borboletas. Um pastor, a meu lado
perguntou-me se eu poderia contá-las. “São oitocentas e cinqüenta e seis!” –
respondi. “Oitocentas e cinqüenta e seis!” – exclamou o meu companheiro, como
se achasse exagerado aquele total. Só então verifiquei que por descuido havia
contado não as borboletas, mas, suas asas. Feita a necessária divisão por 2,
encontrei a seguir, o resultado certo.
Ao ouvir o relato desse caso, expandiu-se o vizir em estrepitosa risada que
soava, aos meus ouvidos, como se fora uma música deliciosa.
- Há nisso tudo – interveio, muito sério, o poeta Iezid – uma
particularidade que me escapa ao raciocínio. A divisão por 6 é aceitável, uma vez
que cada camelo tem 4 patas e 2 orelhas e a soma (4 + 2) é igual a 62. Não
compreendo, porém, é a razão que o levou a juntar 1 ao total antes de dividi-lo
por 6!
- Nada mais simples – acudiu logo Beremiz. – Ao contar as orelhas, notei
que um dos camelos era defeituoso (só tinha uma orelha). Para que a conta
ficasse certa era preciso acrescentar 1 ao total obtido.
E voltando-se para o vizir perguntou:
- Seria indiscrição ou imprudência de minha parte pergunta-vos, ó vizir,
qual a idade daquela que tem a ventura de ser vossa noiva?
- De modo algum – respondeu, risonho, o ministro. – Astir tem 16 anos!
E acrescentou, sublinhando as palavras com um ligeiro tom de
desconfiança:
- Mas não vejo relação alguma, senhor calculista, entre a idade da minha
noiva e os camelos que vou oferecer, de presente, ao meu futuro sogro!
- Desejo apenas – refletiu Beremiz – fazer-vos uma pequena sugestão. Se
retirardes da cáfila o tal camelo defeituoso (sem orelha) o total passará a ser de
256. Ora, 256 é o quadrado de 16, isto é, 16 vezes 16. O presente oferecido ao pai
da encantadora Astir tomará, desse modo, feição altamente matemática: O
número de camelos que formam o lote é igual ao quadrado da idade da noiva!
Além do mais, o número 256 é potência exata do número 2 (que para os antigos é
número simbólico), ao passo que 257 é primo.3 Essas relações entre os números quadrados são de bom augúrio para os apaixonados. Há uma lenda muito
interessante sobre os números quadrados. Quereis ouvi-la?
- Com muito prazer – respondeu o vizir. –As lendas famosas, quando bem
narradas, são como brincos de ouro para os meus ouvidos.
Depois de ouvir palavras tão lisonjeiras, o calculista inclinou a cabeça,
num gesto de agradecimento, e começou:
Conta-se que o famoso rei Salomão,1 para demonstrar a finura e a
sabedoria de seu espírito, deu à sua noiva, a rainha de Sabá – a famosa Belquiss –
uma caixa com 529 pérolas. Por que 529? Sabe-se que 529 é o quadrado de 23,
isto é, 529 é igual a 23 multiplicado por 23. E 23 era, exatamente, a idade da
rainha. No caso da jovem Astir, o número 256 virá substituir, com muita
vantagem, o número 529.
Todos olharam, com certo espanto para o calculista. E este em tom calmo
e sereno, prosseguiu:
Vamos somar os algarismos de 256. Obtemos a soma 13. O quadrado de
13 é 169. Vamos, agora, somar os algarismos de 169. A soma dos algarismos de
169 é 16. Existe, portanto, entre os números 13 e 16, uma curiosa relação que
poderia ser chamada a “amizade quadrática”. Realmente, se os números
falassem, poderíamos ouvir o seguinte diálogo. O Dezesseis diria ao Treze:
- Quero prestar-te uma homenagem, meu caro. O meu quadrado é 256 e a
soma dos algarismos desse quadrado é treze.
O Treze responderia:
- Agradeço a tua gentileza, meu amigo, e quero retribuí-la na mesma
moeda. O meu quadrado é 169 e a soma dos algarismos desse quadrado é 16.
- Parece-me que justifiquei cabalmente a preferência que deve ser dada ao
número 256 que excede, por suas singularidades, o número 257.
- A sua idéia é bastante curiosa – concordou, prontamente, o vizir -, e vou
executá-la, muito embora venha sobre mim pesar a acusação de plagiário do
grande Salomão!
E, dirigindo-se ao poeta, Iezid, rematou:
- Noto que a inteligência desse calculista não é menor que a sua habilidade
em descobrir analogias e inventar lendas. Muito acertado andei no momento em
que resolvi convidá-lo para meu secretário.
- Sinto dizer-vos, ilustre Mirza2 – tornou Beremiz -, que só poderia aceitar
o vosso honroso convite se aqui houvesse também lugar para o meu bom amigo
Hank-Tade-Maiá – o bagdali, que ora se vê desempregado e sem recursos.
Fiquei encantado com a delicada lembrança do calculista. Ele procurava
desse modo, atrair a meu favor a valiosa proteção o poderoso vizir.
- É muito justo o seu pedido – condescendeu o vizir. – O seu companheiro
Hank-Tade-Maiá ficará exercendo aqui as funções de escriba, com o ordenado
que lhe couber.
Aceitei, sem hesitar, a proposta, exprimindo logo ao vizir, e, também ao
bondoso Beremiz, o meu reconhecimento.
CAPÍTULO VII
Alguns dias depois, encerrados os trabalhos que fazíamos no palácio do
vizir, fomos dar um giro pelo suque1 e pelos jardins de Bagdá.
A cidade apresentava, naquela tarde, um movimento intenso, febril, fora
do comum. É que, pela manhã, haviam chegado duas ricas caravanas de
Damasco. No bazar dos sapateiros, por exemplo, mal se podia entrar; havia sacos
e caixas com mercadorias, amontoados nos pátios das estalagens. Forasteiros
damascenos, com imensos turbantes coloridos, ostentando nas cinturas suas
armas, caminhavam descuidados, olhando com indiferença para os mercadores.
Sentia-se um cheiro forte de incenso, de quife2 e de especiarias. Vendedores de
favas discutiam, quase se agrediam, proferindo pragas tremendas em sírio.
Um jovem guitarrista mossulense, sentado sobre grandes sacos de
melancia, cantava uma toada monótona e triste:
“Que importa a vida da gente,
Se a gente, por mal ou bem,
Vai vivendo simplesmente
A vida que a gente tem?”3
Vendedores, nas portas de suas tendas, apregoavam suas mercadorias,
exaltando-as com elogios exagerados e fantasiosos, no que é fértil a imaginação
dos árabes.
- Este rico tecido é digno do nosso emir!
- Amigos! Eis um delicioso perfume que lembra os carinhos de vossa
esposa!
- Reparai, ó cheique, nestas chinelas e neste lindo cafetã4 que os djins5
recomendam aos anjos!
Interessou-se Beremiz por um elegante e harmonioso turbante azul-claro
que um sírio, meio corcunda, oferecia por 4 dinares. A tenda desse mercador era,
aliás, muito original, pois tudo ali (turbantes, caixas, punhais, pulseiras, etc.) era
vendido por 4 dinares.
Havia um letreiro, em letras vistosas, que dizia:
“OS QUATRO QUATROS”
Ao ver Beremiz interessado em adquirir o turbante azul, objetei:
- Julgo loucura comprar esse luxo. Estamos com pouco dinheiro e ainda
não pagamos a hospedaria.
- Não é o turbante que me interessa – retorquiu Beremiz. – Repare que a
tenda desse mercador é intitulada “Os Quatro Quatros”. Há nisso tudo espantosa
coincidência digna de atenção.
- Coincidência? Por quê?
- Ora bagdali – retorquiu Beremiz -, a legenda que figura nesse quadro
recorda uma das maravilhas do Cálculo: podemos formar um número qualquer
empregando quatro quatros!
E antes que eu o interrogasse sobre aquele enigma, Beremiz explicou,
riscando na areia fina que cobria o chão:
- Quer formar o zero? Nada mais simples. Basta escrever:
44 − 44
- Estão aí quatro quatros formando uma expressão que é igual a zero.
Passemos ao número 1. Eis a forma mais cômoda:
44
44
- Representa essa fração, o quociente da divisão de 44 por 44. E esse
quociente é 1. Quer ver agora, o número 2? Podem-se aproveitar facilmente os
quatro quatros e escrever:
4
4
4
4 +
- A soma das duas frações é exatamente igual a 2. O três é mais fácil.
Basta escrever a expressão:
4
4 + 4 + 4
- Repare que a soma 12, dividida por quatro, dá um quociente 3. Eis,
portanto, o 3 formado por quatro quatros.
- E como vai formar o próprio número 4? – perguntei
- Nada mais simples – explicou Beremiz – o 4 pode ser formado de várias
maneiras diferentes. Eis uma expressão equivalente a 4:
- Observe que a segunda parcela .
4
4 − 4 , é nula, e que a soma fica igual a
quatro. A expressão escrita equivale a 4+0, ou 4.
Notei que o mercador sírio acompanhava atento, sem perder palavra, a
explicação de Beremiz, como se muito lhe interessassem aquelas expressões
aritméticas formadas por quatro quatros.1
Beremiz prosseguiu:
Quero formar, por exemplo, o número 5. Não há dificuldade.
Escreveremos:
4
4 4 4
−
+
4
4x4 + 4
- Exprime esse arranjo numérico a divisão de 20 por 4. E o quociente é 5.
Temos desse modo o 5 escrito como quatro quatros.
A seguir passemos ao 6, que apresenta uma forma muito elegante:
4
4
4 4 +
+
- Uma pequena alteração nesse interessante conjunto conduz ao resultado 7:
4
4
44 −
- É muito simples a forma que pode ser adotada para o número 8 escrito
com quatro quatros:
4 + 4 + 4 − 4
- O número 9 não deixa de ser também interessante:
4
4 + 4 + 4
- Eis agora uma expressão muito elegante, igual a 10, formada com quatro
quatros2:
4
44 − 4
Nesse momento o corcunda, dono da tenda, que estivera a acompanhar a
explicação do calculista em atitude de respeitoso silêncio interesse, observou:
- Pelo que acabo de ouvir, o senhor é exímio nas contas e nos cálculos.
Dar-lhe-ei de presente o belo turbante azul se souber explicar certo mistério
encontrado numa soma, que há dois anos me tortura o espírito.
E o mercador narrou o seguinte:
- Emprestei certa vez a quantia de 100 dinares, sendo 50 a um cheique de
Medina e outros 50 a um judeu do Cairo. O medinense pagou a dívida em quatro
parcelas, do seguinte modo: 20, 15, 10 e 5. Assim:
agou 20, ficou devendo 30
Pagou 15, ficou devendo 15
Pagou 10, ficou devendo 5
Pagou 5, ficou devendo 0
Soma 50 Soma 50
Repare, meu amigo que tanto a soma das quantias pagas como a dos saldos
devedores são iguais a 50. O judeu cairota pagou, igualmente os 50 dinares em
quatro prestações, do seguinte modo:
Pagou 20, ficou devendo 30
Pagou 18, ficou devendo 12
Pagou 3, ficou devendo 9
Pagou 9, ficou devendo 0
Soma 50 Soma 51
Convém observar agora que a primeira soma é 50 (como no caso anterior),
ao passo que a outra dá um total de 51.
Não sei explicar essa diferença de 1 que se observa na segunda forma de
pagamento. Bem sei que não fui prejudicado (pois recebi o total da dívida), mas
como justificar o fato de ser a segunda soma igual a 51 e não a 50?
- Meu amigo – esclareceu Beremiz -, isto se explica com poucas palavras.
Nas contas de pagamento, os saldos devedores não tem relação alguma com o
total da dívida. Admitamos que uma dívida de 50 fosse paga em três prestações:
a primeira de 10, a segunda de 5 e a terceira de 35. Eis a conta, com os saldos:
Pagou 10, ficou devendo 40
Pagou 5, ficou devendo 35
Pagou 35, ficou devendo 0
Soma 50 Soma 75
Neste caso a primeira soma é ainda 50, ao passo que a soma dos saldos é
como se vê 75; podia ser 80, 90, 100, 260, 800 ou um número qualquer. Só por
acaso dará exatamente 50 (como no caso do cheique) ou 51 (como no caso do
judeu).
O mercador alegrou-se por ter entendido a explicação dada por Beremiz e
cumpriu a promessa feita, oferecendo ao calculista o turbante azul que valia
quatro dinares.
CAPÍTULO VIII
Mostrou-se Beremiz satisfeitíssimo ao receber o belo presente do mercador
sírio.
- Está muito bem arranjado – disse, revirando o turbante e examinando-o de
um lado e de outro, cuidadosamente. - Tem, entretanto a meu ver, pequeno
defeito que poderia ser evitado. A sua forma não é rigorosamente geométrica!
Fitei-o sem saber disfarçar a surpresa que suas palavras me levavam ao
espírito. Aquele homem, além de ser original calculista, tinha a mania de
transformar as coisas mais vulgares de modo a dar forma geométrica até aos
turbantes dos muçulmanos.
- Não se admire meu amigo – prosseguiu o inteligente persa, - de que eu
queira ver turbantes com formas geométricas. A geometria existe por toda parte.1
Procure observar as formas regulares e perfeitas que muitos corpos apresentam.
As flores, as folhas e incontáveis animais revelam simetrias admiráveis que nos
deslumbram o espírito. A geometria repito existe por toda parte. No disco do sol,
na folha da tamareira, no arco-íris, na borboleta, no diamante, na estrela-do-mar e
até num pequenino grão de areia. Há, enfim, infinita variedade de formas
geométricas espalhadas pela natureza. Um corvo a voar lentamente pelo céu
descreve com a mancha negra de seu corpo, figuras admiráveis; o sangue que
circula nas veias do camelo não foge aos rigorosos princípios geométricos;2 a
pedra que se atira no chacal importuno desenha no ar uma curva perfeita!3 A
abelha constrói seus alvéolos com a forma de prismas hexagonais e adota essa
forma geométrica, segundo penso, para obter a sua casa com a maior economia
possível de material. A geometria existe, como já disse o filósofo, por toda parte.
É preciso, porém, olhos para vê-la, inteligência para compreende-la e alma para
admira-la. O beduíno rude vê as formas geométricas, mas, não as entende; o
sunita4 entende-as, mas não as admira; o artista, enfim, enxerga a perfeição das
figuras, compreende o Belo e admira a Ordem e a harmonia! Deus foi o grande
geômetra. Geometrizou a Terra e o Céu.5 Existe na Pérsia uma planta muito
apreciada como alimento pelos camelos e ovelhas e cuja semente...
E sempre discorrendo com entusiasmo sobre as múltiplas belezas da
Geometria, foi Beremiz caminhando pela extensa e poeirenta estrada que vai do
suque dos mercadores até a Ponte da Vitória. Eu o acompanhava, em silêncio,
ouvindo embevecido os seus curiosos ensinamentos. Depois de cruzarmos a
Praça Muazém, também chamada refúgio dos Cameleiros, avistamos a velha
Hospedaria das Sete Penas, muito procurada nos dias quentes, pelos viajantes
beduínos vindos de Damasco e de Mossul.
A parte mais pitoresca dessa hospedaria das Sete Penas era o seu pátio
interno, com boa sombra para os dias de verão e cujas paredes se apresentavam
totalmente cobertas de plantas coloridas trazidas das montanhas do Líbano.
Sentia-se ali um ar de tranqüilidade e repouso.
Em velha tabuleta de madeira (junto à qual os caravaneiros amarravam seus
camelos), podíamos ler em letras bem talhadas o título:
SETE PENAS
- Sete Penas! – murmurou Beremiz, observando a tabuleta. – É curioso!
Conheces por acaso, ó bagdali, o dono dessa hospedaria?
Conheço-o muito bem – respondi. – É um velho cordoeiro de Trípoli, cujo
pai serviu nas forças do sultão Queruã. É apelidado o Tripolitano. É bastante
estimado por ser de natureza simples e comunicativa. É homem honrado e
prestativo. Dizem que foi ao Sudão, numa caravana de aventureiros sírios, trouxe
das terras africanas, cinco escravos negros que lhe servem com incrível
fanatismo. Ao regressar do Sudão, deixou o seu ofício de cordoeiro e montou sua
hospedaria, sempre auxiliado pelos cinco escravos.
- Com escravos, ou sem escravos – retorquiu Beremiz – esse homem, o
Tripolitano deve ser bastante original. Ligou o nome de sua hospedaria ao
número, e, o sete foi sempre para todos os povos, muçulmanos, cristãos, judeus,
idólatras ou pagãos, um número sagrado, por ser a soma do número três (que é
divino) com o número quatro (que simboliza o mundo material). E dessa relação
resultam muitas coleções notáveis que totalizam sete:
Sete as portas do inferno;
Sete os dias da semana;
Sete os sábios da Grécia;
Sete os céus que cobrem o mundo;
Sete os planetas;
Sete as maravilhas do mundo.1
Ia o eloqüente calculista prosseguir em suas estranhas observações sobre o
número sagrado, quando avistamos, à porta da hospedaria, nosso dedicado amigo
o cheique Salém Nasair, que acenava repetidas vezes chamando por nós.
- Sinto-me feliz por tê-lo encontrado agora, ó calculista! – disse risonho o
cheique quando dele nos aproximamos. – Sua chegada, não só para mim, como
para três amigos que se acham nesta hospedaria foi altamente providencial.
E acrescentou com simpatia e visível interesse:
- Venham! Venham comigo que o caso é muito sério.
Levou-nos a seguir para o interior da hospedaria. Conduziu-nos por um
corredor meio escuro, úmido, até o pátio interno, acolhedor e claro. Havia ali
cinco ou seis mesas redondas. Junto a uma dessas mesas achavam-se três
viajantes que me pareceram estranhos.
Os homens quando o cheique e o calculista deles se aproximaram,
levantaram-se e fizeram o salã. Um deles parecia muito moço; era alto, magro,
tinha os olhos claros e ostentava belíssimo turbante amarelo cor de ovo, com uma barra branca, onde cintilava uma esmeralda de rara beleza; os dois outros eram
baixos, ombros largos e tinham pele escura como beduínos da África.
Disse o cheique apontando para os três muçulmanos:
- Aqui estão, ó calculista, os três amigos. São criadores de carneiros em
Damasco.Enfrentam agora os problemas mais curiosos que tenho visto. E esse
problema é o seguinte: Como pagamento de pequeno lote de carneiros,
receberam aqui, em Bagdá, uma partida de vinho, muito fino, composta de 21
vasos iguais, sendo:
7 cheios
7 meio cheios
7 vazios.
Querem agora dividir os 21 vasos de modo que cada um deles receba o
mesmo número de vasos e a mesma porção de vinho. Repartir os vasos é fácil.
Cada um dos sócios deve ficar com sete vasos. A dificuldade ao meu ver, está em
repartir o vinho sem abrir os vasos, isto é, conservando-os exatamente como
estão. Será possível, ó calculista, obter uma solução para este problema?
Beremiz depois de meditar em silêncio durante dois ou três minutos,
respondeu:
- A divisão dos 21 vasos, que acabais de apresentar, ó cheique, poderá ser
feita sem grandes cálculos. Vou indicar a solução que me parece mais simples.
Ao primeiro sócio caberão:
3 vasos cheios;
1 meio cheio;
3 vazios.
Receberá, desse modo, um total de 7 vasos. Ao segundo sócio caberão:
2 vasos cheios;
3 meio cheios;
2 vazios.
Este receberá também 7 vasos. A cota que tocará ao terceiro sócio será igual
à do segundo, isto é:
2 vasos cheios;
3 meio cheios;
2 vazios.
Segundo a partilha que acabo de indicar, cada sócio receberá 7 vasos e a
mesma porção de vinho. Com efeito. Chamemos 2 (dois) a porção de vinho de
um vaso cheio, e 1 a porção de vinho do vaso meio vazio.
O primeiro sócio de acordo com a partilha, receberá:
2 + 2 + 2 + 1
E essa soma é igual a 7 unidades de vinho. E cada um dos outros dois
sócios receberá:
2 + 2 + 1 + 1 + 1
E essa soma é também igual a 7 unidades de vinho. E isso vem provar que
a divisão por mim sugerida é certa e justa. O problema que na aparência é
complicado, não oferece a menor dificuldade quando resolvido numericamente.1
A solução apresentada por Beremiz foi recebida com muito agrado, não só
pelo cheique, como também pelos seus amigos damascenos.
- Por Allah! – exclamou o jovem da esmeralda. – Esse calculista é
prodigioso! Resolveu de improviso um problema que nos parecia dificílimo.
- E voltando-se para o dono da hospedaria, perguntou em tom de muita
camaradagem:
- Quanto gastamos aqui nesta mesa, ó Tripolitano?
Respondeu o interpelado:
- A despesa total, com a refeição, foi de trinta dinares!
O cheique Nasair declarou que queria pagar sozinho. Os damascenos não
concordaram. Estabeleceu-se pequena discussão, troca de gentilezas, durante a
qual todos falavam e protestavam ao mesmo tempo. Afinal ficou resolvido que o
cheique Nasair tendo sido convidado para a reunião, não deveria contribuir para a
despesa. E cada um dos damascenos pagou dez dinares. A quantia total de 30
dinares foi entregue a um escravo sudanês e levada ao Tripolitano.
Momentos depois escravo voltou para a mesa com um recado do
Tripolitano.
- O patrão enganou-se. A despesa foi apenas de 25 dinares. Ele mandou,
pois, devolver estes cinco dinares!
- Esse Tripolitano – observou o cheique Nasair – tem a preocupação de ser
honesto. E muito honesto. E tomando as cinco moedas que haviam sido
devolvidas, deu uma a cada um dos damascenos, e, assim das cinco moedas,
sobraram duas. Depois de consultar com um olhar os damascenos, o cheique deu
de presente as duas moedas restantes ao escravo sudanês que os havia servido.
Nesse momento, o jovem da esmeralda levantou-se, e, dirigindo-se muito
sério aos amigos, assim falou:
- Com esse caso do pagamento dos trinta dinares de despesa, ao
Tripolitano surgiu uma trapalhada muito grande.
- Trapalhada? – estranhou o cheique. – Não percebo complicação
alguma!...
- Sim – confirmou o damasceno. – Uma trapalhada muito séria, ou um
problema que parece absurdo. Desapareceu um dinar! Vejam bem. Cada um de
nós pagou 10 dinares e recebeu um dinar de volta. Logo, cada um de nós pagou,
na verdade, 9 dinares. Somos três. É claro que o total pago foi de 27 dinares;
somando-se esses 27 dinares com os dois dinares dados pelo cheique ao escravo
sudanês, obtemos 29 dinares. Dos 30 que foram entregues ao Tripolitano, só 29
apareceram. Onde se encontra o outro dinar? Como desapareceu? Que mistério é
esse?
O cheique Nasair, ao ouvir aquela observação refletiu:
- É verdade, damasceno. A meu ver o teu raciocínio está certo. Estás com
a razão. Se cada um dos amigos pagou 9 dinares, houve é claro, um total de 27
dinares; com os 2 dinares dados ao escravo, resulta um total de 29 dinares. Para
30 (total do pagamento inicial), falta 1. Como explicar esse mistério?
Nesse momento Beremiz, que se mantinha calado, procurou intervir nos
debates; e disse dirigindo-se ao cheique:
- Há um engano no vosso cálculo, ó cheique! A conta não deve ser feita
desse modo. Dos trinta dinares pagos ao Tripolitano, pela refeição temos, temos:
25 ficaram com o Tripolitano;
3 foram devolvidos;
2 dados ao escravo sudanês.
Não desapareceu coisa alguma e não pode existir em conta tão simples a
menor atrapalhação. Em outras palavras: dos 27 dinares pagos (9 vexes 3), 25
ficaram com o Tripolitano e 2 foram dados de gratificação ao sudanês!
Os damascenos ao ouvirem a explicação de Beremiz expandiram-se em
estrepitosas gargalhadas.
- Pelos méritos do profeta1! – exclamou o que parecia mais velho. – Esse
calculista acabou com o mistério do dinar desaparecido e salvou o prestígio desta
velha hospedaria! Iallah!
CAPÍTULO IX
No último dia do Moharrã1, ao cair da noite, fomos procurados na
hospedaria pelo prestigioso Iezid-Abul-Hamid, amigo e confidente do califa.
- Algum novo problema a resolver, ó cheique? – perguntou sorridente
Beremiz.
- Adivinhou! – respondeu o nosso visitante. – Vejo-me forçado a resolver
sério problema. Tenho uma filha chamada Telassim2, dotada de viva inteligência
e com acentuada inclinação para os estudos. Quando Telassim nasceu, consultei
um astrólogo famoso que sabia desvendar o futuro pela observação das nuvens e
das estrelas. Esse mago afirmou que minha filha viveria perfeitamente feliz até
aos 18 anos; a partir dessa idade seria ameaçada por um cortejo de lamentáveis
desgraças. Havia, entretanto, meio de evitar que a infelicidade viesse esmagar-lhe
tão profundamente o destino. Telassim – acrescentou o mago – deveria aprender
as propriedades dos números e as múltiplas operações que com eles se efetuam.
Ora, para dominar os números e fazer cálculos é preciso conhecer a ciência de
Al-Kharismi, isto é, a Matemática. Resolvi, pois, assegurar para Telassim um
futuro feliz, fazendo com que ela estudasse os mistérios do Cálculo e da
Geometria.
Fez o generoso cheique ligeira pausa e logo prosseguiu:
- Procurei vários ulemás3 da corte, mas não logrei encontrar um só que se
sentisse capaz de ensinar Geometria a uma jovem de 17 anos. Um deles, dotado,
aliás, de grande talento, tentou mesmo dissuadir-me de tal propósito. Quem
quisesse ensinar canto a uma girafa, cujas cordas vocais não podem produzir o
menor ruído, perderia o tempo e teria trabalho inútil. A girafa, por sua própria
natureza não poderá cantar. Assim, o cérebro feminino, explicou esse daroês4, é
incompatível com as noções mais simples do Cálculo e da Geometria. Baseia-se
essa incomparável ciência do raciocínio, no emprego de fórmulas na aplicação de
princípios demonstráveis com os poderosos recursos da lógica e das Proporções.
Como poderá uma menina, fechada no harém de seu pai, aprender fórmulas de
Álgebra e teoremas de Geometria? Nunca! É mais fácil uma baleia ir a Meca, em
peregrinação, do que uma mulher aprender Matemática. Para que lutar contra o
impossível? Maktub5! Se a desgraça deve cair sobre nós, faça-se à vontade de
Allah!
O cheique, muito sério, levantou-se da poltrona em que se achava sentado,
caminhou cinco ou seis passos para um lado e para o outro, e, prosseguiu com
acentuada melancolia:
- O desânimo, o grande corruptor, apoderou-se de meu espírito ao ouvir
essas palavras. Indo, porém, certa vez visitar o meu bom amigo Salém Nasair, o
mercador, ouvi elogiosas referências ao novo calculista persa que aparecera em
Bagdá. Falou-me do episódio dos oito pães. O caso narrado com todas as
minúcias impressionou-me. Procurei conhecer o calculista dos oito pães, e, fui
especialmente para esse fim, a casa o vizir Maluf. Fiquei pasmado com a original
solução dada ao problema dos 257 camelos, reduzidos, afinal, a 256. Lembras-te?
E o cheique Iezid, erguendo o rosto e fitando solene o calculista,
acrescentou:
- Serás capaz, ó irmão dos árabes1 de ensinar os artifícios do Cálculo à
minha filha Telassim? Pagarei pelas lições, o preço que exigires! Poderás, como
tens feito até agora, continuar a exercer o cargo de secretário do vizir Maluf.
- Cheique generoso! – retorquiu prontamente Beremiz. – Não vejo motivo
para deixar de atender ao vosso honroso convite. Em poucos meses poderei
ensinar à vossa filha todas as operações algébricas e os segredos da geometria.
Erram duplamente os filósofos quando julgam medir com unidades negativas a
capacidade intelectual da mulher. A inteligência feminina quando bem orientada,
pode acolher, com incomparável perfeição as belezas e os segredos da ciência!
Fácil tarefa seria desmentir os conceitos injustos formulados pelo daroês. Citam
os historiadores vários exemplos de mulheres que se notabilizaram por sua
cultura matemática. Em Alexandria, por exemplo, viveu Hipátia2, que lecionou a
ciência do cálculo a centenas de pessoas, comentou as obras de Diofante,
analisou os dificílimos trabalhos de Apolônio e retificou todas as tabelas
astronômicas então usadas. Não há motivo para temores ou incertezas, ó cheique!
A vossa filha facilmente aprenderá a ciência de Pitágoras. Inch’Allah!3 Desejo
apenas que determineis o dia e a hora em que deverei iniciar as lições.
Respondeu-lhe o nobre Iezid:
- O mais depressa possível! Telassim já completou 17 anos, e, estou
ansioso por livra-la das tristes previsões do astrólogo.
E ajuntou:
- Devo, desde já, advertir-te de uma particularidade que não deixa de ter
importância no caso. Minha filha vive encerrada no harém e jamais foi vista por
homem algum estranho à nossa família. Só poderá, portanto, ouvir as tuas aulas
de Matemática oculta por um espesso reposteiro com o rosto coberto por um haic
e vigiada por duas escravas de confiança. Aceitas, ainda assim, minha proposta?
- Aceito-a com viva satisfação – respondeu Beremiz. – É evidente que o
recato e o pudor de uma jovem valem mais que os cálculos e as fórmulas
algébricas. Platão, filósofo, mandou colocar à porta de sua escola a seguinte
legenda: “Não entre, se não é geômetra.” Apresentou-se um dia um jovem de
costumes libertinos e mostrou desejo de freqüentar a Academia. O Mestre,
porém, não o admitiu, dizendo: “A Geometria é toda pureza e simplicidade. O teu
despudor ofende tão pura ciência.” O célebre discípulo de Sócrates procurava,
desse modo, demonstrar que a Matemática não se harmonizava com a depravação
e com as torpes indignidades dos espíritos imorais. Serão, pois, encantadoras as
lições dadas a essa jovem que não conheço e cujo rosto mimoso jamais terei a
ventura de admirar. Se Allah quiser, poderei iniciar amanhã as aulas.
- Perfeitamente – concordou o cheique. – Um dos meus servos virá
buscar-te manhã (querendo Allah!) pouco depois da segunda prece. Uassalã!
Logo que o cheique Iezid deixou a hospedaria, interpelei o calculista:
- Escuta, Beremiz. Há nisso tudo um ponto obscuro para mim. Como
poderás, afinal ensinar Matemática a uma jovem quando, na verdade, nunca
estudaste essa ciência nos livros, nem quando freqüentaste as lições dos ulemás?
O cálculo que aplicas com tanto brilho e oportunidade, como foi aprendido? Bem
sei, ó calculista, entre pastores persas, contando ovelhas, tâmaras e bandos de
aves em vôo pelo céu...
- Estás enganado, bagdali – reconsiderou, com serenidade, o calculista. –
Ao tempo em que eu vigiava os rebanhos de meu amo, na Pérsia, conheci um
velho dervixe chamado Nô-Elin. Certa vez, durante violenta tempestade de areia,
salvei-o da morte. Desse dia em diante o bondoso ancião tornou-se meu amigo.
Era um grande sábio e ensinou-me coisas úteis e maravilhosas. Depois das lições
que recebi desse mestre, sinto-me capaz de ensinar Geometria até o último livro
do inesquecível Euclides, o alexandrino1.
CAPÍTULO X
Pouco passava da quarta hora quando deixamos a hospedaria e seguimos
para a casa do poeta Iezid-Abul-Hamid.
Guiados por um servo amável e diligente, depressa atravessamos as ruas
tortuosas do bairro de Muassã e fomos ter a um luxuoso palácio construído em
meio de atraente parque.
Beremiz ficou encantado com a feição distinta que o rico Iezid procurava
dar à sua residência. Erguia-se ao centro uma grande cúpula prateada onde os
raios solares se desfaziam em belíssimos efeitos coloridos. Um grande pátio
fechado por forte portão de ferro ornado com todos os requintes da arte, dava
entrada para o interior.
Um segundo pátio interno tendo no centro bem ordenado jardim, dividia o
edifício em dois pavilhões. Um deles era ocupado pelos aposentos particulares; o
outro destinava-se aos salões de reunião, e, à sala aonde o cheique vinha muitas
vezes cear em companhia de poetas, vizires e ulemás.
O palácio do cheique, apesar da ornamentação artística das colunas, era
triste, sombrio. Quem reparasse apenas nas janelas gradeadas não poderia avaliar
as pompas de arte de que todos os aposentos eram interiormente revestidos.
Larga varanda corrida com arcarias sustentadas por nove ou dez colunas
esbeltas e delgadas de mármore branco, com arcos recortados em ferradura, com
as paredes forradas de azulejos em relevo e pisos mosaicos, comunicava os
corpos dos dois pavilhões; e duas soberbas escadarias, também do mesmo
mármore, conduziam ao jardim onde flores de formas e perfumes diversos
cingiam manso lago.
Um viveiro, cheio de pássaros, ornado também de rosáceas e arabescos de
mosaico, parecia ser a peça mais importante do jardim. Havia ali aves de cantos
exóticos de formas singulares, de plumagem rutilante; algumas, de peregrina
beleza, pertenciam a espécies para mim desconhecidas.
Recebeu-nos o dono da casa com muita simpatia, vindo ao nosso encontro
no jardim. Em sua companhia achava-se um jovem moreno, magro, de ombros
largos, que não nos pareceu muito amável. Ostentava na cintura riquíssimo
punhal, com cabo de marfim. Tinha o olhar penetrante, agressivo e o modo
agitado como falava era assaz desagradável.
- É esse, então o tal calculista? – observou, sublinhando as palavras com
tom de menoscabo. Admira-me a tua boa-fé, meu caro Iezid! Vais permitir que
um mísero garopeiro1 se aproxime e dirija a palavra à nobre e encantadora
Telassim? Não faltava mais nada! Por Allah! És muito ingênuo meu caro!
E rompeu numa gargalhada de riso injurioso.
Aquela grosseria revoltou-me. Tive ímpetos de repelir a descortesia
daquele atrevido. Beremiz, porém, não se perturbou. Era bem possível até que o
algebrista, naquele momento, descobrisse nas palavras insultuosas que ouvira,
novos elementos para fazer cálculos ou para resolver problemas.
O poeta mostrando-se constrangido com a atitude indelicada de seu amigo,
observou:
- Queira desculpar, senhor calculista, o juízo precipitado que acaba de ser
feito pelo meu primo el-hadj Tara-Tir1. Ele não o conhece, não avalia a sua
capacidade matemática, e, está mais do ninguém, preocupado com o futuro de
Telassim.
- Não o conheço é claro! Não me empenho grande coisa em conhecer os
camelos que passam por Bagdá em busca de sombra e alfafa – replicou o
iracundo Tara-Tir, com insultuoso desabrimento, sorrindo torvamente.
E falando depressa, nervoso, atropelando as palavras:
- Posso provar em poucos minutos, meu primo, que estás completamente
iludido com relação à capacidade desse aventureiro. Se mo permitisses, eu o
esborracharia com duas ou três banalidades que ouvi de um mestre-escola de
Mossul.
- Decerto que sim – concordou Iezid. – Poderás interrogar o nosso
Calculista e propor-lhe, agora mesmo, o problema que quiseres.
- Problema? Para que? Queres meter em confronto o chacal que uiva e o
ulemá que estuda? – atalhou o grosseirão. – Asseguro-te que não será necessário
inventar problema para fazer voar a máscara ao sufita2 ignorante. Chegarei ao
resultado que pretendo sem fatigar a memória, mais rápido do que pensas.
E apontando para o grande viveiro, interpelou Beremiz fixando em nós os
olhos miúdos que dardejavam um brilho inexorável e frio:
Responde-me, ó Calculista do Marreco3, quantos pássaros estão naquele
viveiro?
Beremiz Samir cruzou os braços e pôs-se a observar com viva atenção o
viveiro indicado. Seria prova de insânia, pensei, tentar contar tantos pássaros, que
volitavam irrequietos por todos os lados, já substituindo-se nos poleiros com
incrível ligeireza.
Ao cabo de alguns minutos o calculista o calculista voltou-se para o
generoso Iezid e disse-lhe:
- Peço-vos, ó cheique, mandeis imediatamente soltar três daqueles
pássaros cativos. Será, desse modo, mais simples e mais agradável para mim
anunciar o número total!
Aquele pedido tinha todos os visos de um disparate. É claro que quem
conta certo número, contará facilmente esse número mais 3. Iezid intrigadíssimo,
embora, com o inesperado pedido do calculista, fez vir o encarregado do viveiro
e deu prontas ordens para que a solicitação do calculista fosse atendida: libertos
da prisão, três lindos colibris voaram rápidos pelo céu afora.
- Acham-se agora, neste viveiro – declarou Beremiz em tom pausado -,
quatrocentos e noventa e seis pássaros!
Admirável! – exclamou Iezid com entusiasmo. – É isso mesmo! Tara-Tir
sabia disso! Eu mesmo já o havia informado! A minha coleção era meio
milheiro; feito o desconto dos três que agora soltei e de um rouxinol, mandado
para Mossul, ficam precisamente 496!
- Acertou por acaso – regougou, estuante de rancor, o terrível Tara-Tir.
O poeta Iezid, instigado pela curiosidade, perguntou a Beremiz:
- Pode dizer-me, amigo, por que preferiu contar 496, quando era tão
simples contar 496 + 3, ou melhor, 499?
- Posso explicar-vos, ó Cheique, a razão de meu pedido – respondeu
Beremiz com altivez. – Os matemáticos procuram sempre dar preferência aos
números notáveis e evitar os resultados inexpressivos e vulgares. Ora, entre 499 e
496 não há que hesitar. O número 496 é um número perfeito e deve merecer
nossa preferência.
- E que vem a ser um número perfeito? – perguntou o poeta. – Em que
consiste a perfeição de um número?
- Número perfeito – elucidou Beremiz – é o que apresenta a propriedade
de ser igual à soma de seus divisores – excluindo-se, é claro, dentre esses, o
próprio número. Assim por exemplo, o número 28 apresenta 5 divisores, menores
que 28:
1,2,4,7,14.
A soma desses divisores...
1 + 2 + 4 + 7 + 14
...é precisamente igual a 28. Logo, 28 pertence à categoria dos números
perfeitos.
Divisores
de 496
(menores
que 496)
1
2
4
8
16
31
62
124
248
Soma 496
Divisores
de 28
(menores
que 28)
1
2
4
7
14
Soma 28
- O número 6 também é perfeito. Os divisores de 6 (menores que 6) são:
1, 2 e 3, cuja soma é 6. Ao lado do 6 e do 28, pode figurar o 496 que é também,
como já disse, número perfeito.1
O rancoroso Tara-Tir, sem querer ouvir novas explicações, despediu-se do
cheique Iezid e retirou-se porejando raiva, pois não fora pequena a derrota
sofrida ao investir contra a perícia do calculista. Ao passar por mim fitou-me
acintoso, com ar de soberano desprezo.
- Peço-lhe, senhor calculista – desculpou-se ainda o nobre Iezid -, que não
se sinta ofendido com as palavras de meu primo Tara-Tir. Ele é de temperamento
exaltado, e, depois que assumiu a direção das minas de sal, em Al-Derid, tornouse
irascível e violento. Já sofreu cinco atentados e várias agressões de escravos!
Era evidente que o inteligente Beremiz não queria causar constrangimento
ao cheique. E respondeu, cheio de brandura e bondade:
- Dada a grande diversidade de temperamentos e caracteres, não nos é
possível viver em paz com o próximo sem refrearmos a ira e cultivarmos a
mansidão. Quando me sinto ferido pela injúria procuro seguir o sábio preceito de
Salomão:
“Quem de repente se enfurece é estulto:
Quem é prudente dissimula o insulto.”1...
...Jamais poderei esquecer os ensinamentos de meu bondoso pai. Sempre
que me via exaltado, e, desejoso de tomar desforro, dizia-me:
“Aquele que se humilha diante dos homens torna-se glorioso diante de
Deus!”
E, depois de pequena pausa, acrescentou:
- Sou, não obstante, muito grato ao rico Tara-Tir, e, dele não posso
guardar o menor ressentimento. Basta dizer que o seu turbulento primo me
ofereceu o ensejo de praticar nove atos de caridade.
- Nove atos de caridade? – estranhou o cheique. – Como foi isso?
- Cada vez que pomos em liberdade um pássaro cativo – explicou o
calculista – praticamos três atos de caridade. O primeiro para com a avezinha,
restituindo-lhe a vida ampla, livre, que lhe havia sido roubada; o segundo para
com a nossa consciência; o terceiro para com Deus!
- Quer dizer, então, que se eu der liberdade a todos os pássaros do
viveiro...
- Asseguro-vos que praticareis, ó Cheique, mil quatrocentos e oitenta e
oito atos de elevada caridade! – atalhou prontamente Beremiz, como se já
soubesse, de cor, o número que exprimia o produto de 496 por 3.
Impressionado com essas palavras, o generoso Iezid determinou fossem
postas em liberdade todas as aves que se achavam no viveiro.
Os servos e escravos quedaram estarrecidos ao ouvir aquela ordem. A
coleção organizada com paciência e trabalho valia uma fortuna. Nela figuravam
perdizes, colibris, faisões multicores, gaivotas negras, patos de Madagascar,
corujas do Cáucaso e várias andorinhas raríssimas da China e da Índia.
- Soltem os pássaros!2 – ordenou novamente, o cheique, agitando a mão
resplandecente de anéis.
As largas portas da tela metálica se abriram. Aos grupos, aos pares, os
cativos deixavam a prisão e espalhavam-se pelos arvoredos do jardim.
- Cada ave com as asas estendidas é um livro de duas folhas abertas no
céu. Feio crime é roubar ou destruir essa miúda biblioteca de Deus1
Começamos nesse momento, a ouvir o fraseio de uma canção; a voz era
tão terna e suave que se confundia com o trinado das leves andorinhas com o
arrulhar dos mansos pombos.
A princípio era uma melodia meiga e triste, repassada de melancolia e
saudade como as endechas de um rouxinol solitário; animava-se, depois, num
crescendo vivo, em gorjeios complicados, em trilos argentinos, entrecortados por
gritos de amor que contrastavam com a serenidade da tarde, e ressoavam pelo
espaço como folhas que o vento leva. Depois retornou ao primeiro tom triste e
dolente, e, parecia ecoar pelo jardim como um leve suspiro de viração:
Falasse eu as línguas dos homens e dos anjos
E não tivesse caridade,
Seria como o metal que soa,
Ou como o sino que tine,
Nada seria!...
Nada seria!...
Tivesse eu o dom da profecia,
E toda ciência;
De maneira tal que transportasse os montes
E não tivesse caridade,
Nada seria!...
Nada seria!...
Distribuísse todos os meus bens para o sustento dos pobres,
E entregasse o meu corpo para ser queimado,
E não tivesse caridade,
Nada seria!...
Nada seria!...
O encanto daquela voz parecia envolver a Terra numa onda de indefinível
alegria. O dia tornara-se até mais claro.
- É Telassim quem canta – explicou o cheique ao reparar na atenção com
que ouvíamos embevecidos a estranha canção.
O passaredo em revoada enchia os ares com o chilrear alegre da liberdade.
Não passavam de 496, mas davam a impressão de que eram dez mil!
As palavras citadas, sob forma de versos, são da primeira epístola de São
Paulo aos Coríntios.
- E de quem são esses belíssimos versos? 2 – indaguei.
O cheique respondeu.
- Não sei. Uma escrava cristã ensinou-os a Telassim e ela jamais os
esqueceu. Devem ser de algum poeta nazareno3. Essa informação eu a ouvi, há
dias, da filha de meu tio4, mãe de Telassim.
aew o blog e massa pra quem gosta de matemática e tecnicas de estudo e fera.. e tem outra coisa esse site e bom tbn pra dar uma estudada pra prova pra quem tah vendo essa parte de matemática
ResponderExcluire fisica tbn goste do nota do blog:
conteudo: 10,00
dsign: 2,3
organização do blog: 5,5
organização por pagina : 1,0
e e isso q tenho pra falar caso nao conheça o meu blog e http://familyeminem.blogspot.com
de: Alexandre Bruno do Carmo
Para: Paulo Roberto
VLW...